quinta-feira, 25 de maio de 2017

You

Depressão pode tirar tudo de você.  Ela vai distorcer sua realidade, sua auto estima. Ela vai ser a voz que te diz todas as coisas mais horríveis, ela vai te manter acordada e vai te afastar das pessoas que você ama. Você não merece ser amada. Você não é boa o suficiente.  Você não consegue fazer as coisas. Para que tentar se nem vale a pena.
Eu sei que você ouve as mesmas coisas que eu 24 horas . Eu sei que você levanta, prepara o café e pensa se vale a pena existir hoje. É nessas horas que eu escolhia uma entre as três opções.
1. Ficar sendo criança na cama e não levantar;
2. Preparar algo de comer;
3. Te contar algo incrível numa tentativa de te empolgar.

Eu sinto falta dessas rotinas e certezas. Sinto falta de saber que você vai estar lá para rebater meus pensamentos e não deixar eu fazer decisões estúpidas.  Mas sinto mais falta ainda de como você me conhece tanto e ainda assim me admira.
Você sabe, depressão não deixa você pensar bem de si mesmo. É aquele peso em cima de você que pode definir boa parte dos seus dias. Então eu não acho que eu mereço admiração alguma, mas eu sinto isso de você.
Se tem algum arrependimento é  nunca ter conseguido passar para você o quanto eu sinto o mesmo.
A vida foi desnecessariamente cruel com você mas mesmo assim você acredita em um mundo bom. Você acredita nas pessoas (mesmo não gostando delas) e no potencial humano.  Você vê o raciocínio por trás das coisas, está sempre se esforçando e buscando ser a pessoa que você quer ser . Claro que tem dias que você está sem saco para tentar mas você ainda está lá e isso conta tanto. Você é amoroso, carinhoso e vive me dando surpresas aleatórias. Você pensa em mim nas coisas mais básicas e cuida da minha sanidade.
Seu gosto para séries é impecavel; você sente música ao invés de ouvir e sempre tenta entender as coisas ao invés de julgar. Você não compreende muito o mundo não, ele não faz sentido para ti. Mas você aceita viver nele e jogar com ele.
Eu te amo. Mas mais que isso eu te admiro. Talvez sejam coisas variantes para mim. Eu só queria que você soubesse que nenhuma das duas vai sumir.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

EX

A primeira não disse adeus. Apesar de toda a mágoa eu entendo que não podia ter sido diferente. Ela deixou o vazio das manhãs de sábado, das risadas na cozinha e de dançar pela casa. Ela era segurança, cuidado, toda de terra. 
Ela me lembrava da escolha que fiz para ficar com ela, mas eu não conseguia me arrepender. Ela aguentou meu silêncio, me fazendo companhia enquanto eu não tinha como expressar o que estava passando por mim. Quando minhas manhãs de sábado passaram a ser ocupadas pelo psicologo , eu disse como era difícil, deixar ela em minha cama e partir. Sábado seguinte, acordei com cheiro de tapioca, música nordestina e garantia que ela ia estar ali. 
Demorou que ela voltasse para minha vida. É que toda vez que a gente se encontra eu fico meio na dúvida do que dizer e meu coração bate muito rápido quando eu imagino as possibilidades que ainda podem se cumprir. Eu não sei se é de medo ou de ansiedade, eu espero nunca descobrir.
A segunda, eu forcei o adeus. Ela me lembra o fim, aquelas cinco horas de discussão no meio da praça, aquele maço de cigarros, aquela vez que eu a fiz chorar com menos de dez palavras... Ela me admira tanto. Me ama tanto. Eu não sabia como lidar. Ela era tormenta e tempestade atrás de tempestade. Ela amava me odiar e dizia o quanto eu era babaca mas ela estava sempre lá mas ela precisava que eu fosse um porto e eu precisava que ela aguentasse nadar.
A gente nunca teve nada haver. Ela não gosta de ficção científica e ama as Kardashians e reality shows. A mesma personalidade impulsiva e ansiosa minha e a falta de fé na humanidade. Eu a amei sem notar. Eu mandei aúdio as 3 da manhã claramente chapada para te dar uma bronca, por ter entrado na minha vida e ter se tornado importante tão rápido, sem eu nem ter conseguido notar. Ela é o motivo de eu ter me aberto para os meus pais. Ela é a minha coragem e a minha sustentação Mas quando a gente estava juntas, ela não era nenhuma dessas coisas. 
Eu tinha certeza que a gente nunca mais se falaria. Mas é ela a primeira pessoa que falo na maioria dos dias e a última também. Eu me esforcei muito para você sair de perto, apesar de todas as merdas que eu fiz. Foi muito egoísta, mas eu gosto tanto da sua constante na minha vida.
O terceiro, eu nunca achei que haveria um adeus. Eu construí uma vida com ele e não é tirando roupas de um armário que eu apago a lembrança na minha alma. É que ele tem cheiro de casa e quando ele me abraça forte, eu me sinto tão confortável que eu consigo chorar. É que eu não consigo imaginar minha vida sem sua presença mas também não posso ficar. É que seu olhar me lembra todos os meus erros que eu não consegui consertar. 
Fui eu que disse adeus, porque eu não conseguia mais me esforçar. Eu estava cansada de te machucar tanto e me sentir incapaz. Eu acredito e ele sabe, que viver uma vida que não é a que você quer é morrer a cada segundo. Quando nossos ventos pararam de seguir a mesma direção, eu já sabia que ia acabar mas cada conversa dilacera a alma, porque eu queria, mas queria tanto conseguir mudar
Vocês conhecem todo o meu pior, toda a podridão e mesmo assim escolheram ficar. Acho vocês meio burros mas eu não sei o que ia fazer se um de vocês resolvesse não estar mais por aqui

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Trigger without warning

Eu tinha 6 anos quando eu entendi que eu não era prioridade. Quando você tem um irmão suicida é isso que acontece.
Das 3 tentativas, eu lembro bem de 2, a primeira é meio difusa. Mas eu lembro melhor ainda de todos os dias que se seguiram a isso.
Eu tinha 6 anos e tinha que entender que okay, eu queria algo. Mas meu irmão queria outra coisa e ele talvez não estivesse aqui pela manhã. 
Talvez ele quisesse pegar meu dinheiro sem avisar, talvez ele quisesse me acordar, talvez ele quisesse que meu aniversário fosse um churrasco. Talvez ele quisesse pegar um livro meu e ele não precisa realmente de autorização pra isso, precisa? Ah é importante pra você? Mas não faz caso com isso, você nem sabe se vai ter seu irmão. Você não pode ser assim egoísta.  Isso nem faz sentido.

Aprendi a não ocupar espaços, a não reclamar, a não ouvir música, não escolher minha comida, não abrir a boca sobre o que eu queria. Aprendi que me dariam forças mas que os caminhos eram solitários e meio fechados mas eu tinha que abrir sozinha.

Não é difícil entender que com o tempo eu passei a desejar que meu pulso estivesse coberto de cicatrizes.  Que aqueles remedios entupissem minhas veias porque aí sim minha voz teria valor. Ou talvez eu morresse e qual seria a grande diferença? Aí eu não precisaria estar sempre fingindo que está tudo bem e ouvindo: ah ela nem dá trabalho, fica feliz com umas coisas bobas.

Porque eu não fico.

Mas o que adianta reunir a coragem do peito e dizer: Não quero. Quantas vezes passaram por cima de mim? O Julio queria.  Julio não fez por mal. Você tem que entender.
Eu não quero na vida adulta ouvir o que eu ouvi quando criança. Eu não quero desejar fortemente estar morrendo também porque não tem nada de bom em estar tentando tanto estar viva. Pelo contrário, tudo fica pior.

Eu sabia que a L. vir aqui seria trigger pra mim. Não sabia te explicar isso mas é tão injusto eu ter que explicar para ser ouvida.  Você sabia que eu não queria nem que você cogitasse isso.

Dói pra caralho saber que minha voz não tem valor. Que 20 anos depois eu estou no mesmo patamar. Que eu devia só aceitar e mentir porque o que eu sinto vai ser ignorado em prol de outras pessoas. Dói saber que depois de 10 anos me conhecendo você ia fazer o mesmo machucado em mim.

Isso não é metade do que eu queria te dizer mas eu não quero te dizer tudo que eu estou pensando.
Eu confiei uma vida em você.
Não me arrependo.
Mas você não vai fazer eu me afogar. Eu me recuso a piorar. Sim, vai doer. Sim, tô com a confiança toda quebrada mas eu vou viver. E eu vou ter essas pessoinhas a minha volta que vão me dar suporte.
Porque hoje eu acredito que eu mereço isso. Que eu posso pedir isso.
Mas não de você.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Bêbada

Minha cabeça zomba
Tudo é confuso
A única constante é você
se eu queria te mandar áudio nesse estado?
Queria.
Não irei fazer.
Você também não o faria.
Recuplrocidadade é tudo
E nessa batalha ninguém vence
Eu certamente não te amo
Mas certamente não sou indiferente
Enquanto meu estômago se reviravolta
Eu só penso em te beijar
Sentir todo o calor junto a mim
com ele me casar
Possível não é
Nem para mim e acredito para ti
Não sei se você se interessa
mais do que em mim
Você sabe ou eu espero, entende a sombra que se instala
entre quem você é e mostra
não por causa de reservas e excuses qualquer
é autlpreservação nua e crua
sim, te quero
não, não vou correr atrás de você

sábado, 5 de novembro de 2016

Presa

Texto de agosto 2010

   Ela gira em meus braços, embevecida. Meu cheiro é o seu néctar. A seguro, forte,confiante. Ela é minha, minha presa do dia. Algo não mais do que por uma noite para mim, mas uma lembrança fixa na mente dela. Gosto da idéia de marca-la. Se pudesse a marcaria fisicamente e definitivamente mas ela provavelmente não vai gostar.

    A observo fixamente. Bela, princesa. Nunca chegará a rainha.. Mesmo assim me delicia
com seu corpo colado ao meu. Beijo-a toda, em especial ao seu pescoço. Aplaco seus
medos, guiando-a. Coloco suas delicadas mãos em meu corpo. Tão delicado quanto o dela e ao mesmo tempo tão menos virginal. Nossas roupas finas de dormir tão logo deixadas de lado. No chão, embaranhadas, elas parecem estar no lugar certo.
 
   Amo-a. Neste momento. Pois mesmo em sua meninice se entrega ao novo, relaxada em meu abraço. Me sinto mãe, me sinto dona dessa pequena. Exploro seu corpo nu com cuidado.
 
   Primeiramente com as mãos, depois deixo a minha lingua continuar. Seu gosto tão doce e
ainda assim não enjoativo. Beijo seus pés. Não quero ver sombra de medo em seus olhos
tão límpidos.
 
   Brinco com seus seios fazendo-os desabrochar. Um carinho suave até que ouça sua voz sussurrar: Lamba-os, por favor... Claro querida. Seu desejo, meu desejo.Ela pede para
brincar com meu corpo. Deixo, é claro. Guio sua mão novamente, mas logo ela não
precisa mais de minha ajuda. Minha putinha nata, uma excelente descoberta.

   Não quero esperar mais, junto meu corpo ao dela. Nossos seios duros, um contra o
outro. Uma sensação de prazer se espalha por mim,ela se encontra toda arrepiada.

   Beijo-a enquanto desço minha mão pronta a explorar sua intimidade. Calmamente descubro o que lhe dá mais prazer, para depois me atentar a isto. Sei que não posso me manter apenas em seus pontos climax, sei como lhe torturar e aí sim lhe dar mais prazer. 

   Ouso, levo minha boca até aquele antro de prazer tão neglicenciado por ela. A excito,
quero fazê-la gozar em minha boca. E com um gemido segurado e um grande arranhão em
minhas costas descubro que alcancei meu objetivo.

   A penetro com meu dedo neste momento, sem esperar permissão. Sinto sua virgindade
latente, sei que ela é minha. A tomo com uma pressa que não me é devida. Rapidamente
ela me penetra da mesma maneira e quando estamos as duas tão perto do gozo, roço nela. 

   Uma intimidade só conhecida entre mulheres, meu ponto mais sensível com o seu. Juntas nos excitamos para um orgasmo final, maior e mais longo...Agora só resta a mim desabar sobre seu corpo, cansada, enquanto observo sua face serena,totalmente livre de
preocupações.

O oitavo dia de neve

Texto de fevereiro de 2011

   
Mais um dos nossos feneceu essa manhã. Não havia nada que pudessemos fazer além de nossas preces. E tenho a impressão que elas também não são de grande serventia. Sabíamos de sua morte, mesmo assim o coração parece pesado e os ânimos abalados. Qualquer soldado é uma vida, uma pessoa. Por mais que não fosse um amigo íntimo você sente. É uma derrota.
   Ele me chamou atenção, admito. Já há uns dez dias aguenta sua ferida sem reclamar. Apenas agradeceu por ter tido a graça de fazer parte desse regimento. Sua ferida não era tão profunda. Mas, o adversário fora ardil.    
   Contaminara a própria espada. Infeccionado o ferimento não consegue cicatrizar.Isso por si só já seria um problema difícil de contornar nas condiççoes de campanha. Somando-se ao inverno rigoroso, sabiamos que a chance de que ele e todos os outros feridos se recuperassem bem era mínima.
   Não os abandonaremos. Raramento o fazemos. Vivos aind apodem ser úteis e mortos, são nossos mortos e devemos encaminhar suas almas aos céus.
   Aqueles que perecem em batalha, não podem receber honras. E nem por isso suas almas se perdem. Não vejo tanto sentido em cerimônias gloriosas para aqueles que já não estão entre nós... Contudo, sigo as ordens de meu capitão... Enterro ou cremo os corpos e dou a eles uma última benção. Mesmo tendo certeza que o tempo que perdemos revirando corpos após um dia sanguinário poderia ser usado para restabelecer as forças dos que voltarão a lutar.
   Dessa vez não reclamo. Já faz oito dias que estamos sobre o abrigo dessas cavernas. Há oito dias nao para de nevar. Há oito dias nosso trabalho se resume a impedir que a neve adentre nosso esconderijo e nos sepulte aqui dentro. Tudo o que devemos fazer é criar calor, cuidar dos nossos doentes, manter a saúde e sobreviver. Há oito dias não vemos uma batalha.
   A ração é escassa, mas nos aguentara por pelo menos mais sete dias. Se todos sobrevivermos... Não acho que isso acontecera. Presumo que poderemos sobreviver por dez, onze dias. Mas, não tenho necessidade nenhuma de provar que meus cálculos estão corretos. Prefiro sair daqui antes se possível.
Observei o ferido que até agora não reclamara. Ele tem sido minha melhor distração por aqui. Esperava ouvir em seus momentos finais uma queixa, um pedido, um desejo de vingança... Qaundo o fedor pútrido começou a sair da ferida aberta, me ofereci para cuidar dele.
   Não por pena ou misericórdia, antes o fosse. Simplesmente queria ter certeza que não perderia sua súplica. Todos somos iguais ao morrer. Todos fedemos. Não que isso não aconteça com a maioria ainda em vida.
Durante dois dias acompanhei sua resistência. Sabia que não era daqueles que estavam conosco por obrigação. Ele queria lutar, Queria continuar a servir ao capitão. Mas, não reclamou.
   Alias, em pouco mais de quarenta e oito horas a única coisa que disse é que eu deveria arranjar uma maneira de ser mais útil ao regimento do que cuidar dos já condenados. Falou isso sem raiva ou rancor. Realmente queria o melhor para nós como um todo.
   Talvez se fosse em outro alistamento a história não fosse assim. A verdade é que é um orgulho poder vestir o uniforme negro com a pequena estampa de dragão rubro. Caleb era um excelente capitão. Sabia o nome de cada um dos membros de suas tropas e notava problemas individuais que os melhores amigos ignorariam. Não havia contendas nesse batalhão.
   Apesar de seu jeito tolo e companheiro, qualquer um que já o houvesse visto em uma batalha sabia o quão sanguinário ele era.  Seu prazer em guerrar era enorme e nós já eramos conhecidos como o braço direito do rei.  Em pouco tempo esperavamos que alguns de nós fossemos escolhidos para integrar sua guarda pessoal e guerreavamos para atingir esse posto.
   Não sei se o soldado a minha frente desejava essa honraria. Não sei se ele tinha essa ambição. Sei que estava morrendo como tantos outros. A guerra é injusta. Sempre foi. Matamos e estamos dispostos a morrer por um ideal, contudo não podemos e nem conseguimos esquecer que nos dois lados há homens bons.
   Não vivemos um conto. Nossos inimigos não são monstros e sim cidadões comuns. Somente aqueles bitolados são capazes de ver humanos comuns com espadas nas mãos como animais. E com esses eu prefiro evitar travar um combate...
   Ele arqueia de dor. Deveriam dar algo que minimize a sensação da morte. Que o faça esquecer essa dor. Nem que seja uma coronhada na cabeça, que pelo menos é uma dor aguda seguida de silêncio eterno... Fiquei ao seu lado a madrugada inteira, o observando. Tentando em algumas horas compreender anos e dor e angústia...
   Não consegui. E ele se foi enquanto eu cochilava... Foi sem eu saber o porque dele não reclamar. Foi me deixando uma dúvida eterna. Ele poderia ter sanado. Poderia ter me ensinado a não reclamar na morte como ele e ter o mais perto possível de uma morte honrada. Entretanto, ele preferiu ser um egoísta e guardar sua calma para ele...
    É o nono dia nas cavernas. E continua a nevar.

Ensaio sobre a cegueira

Texto de fevereiro 2010

Meu ritmo de leitura de férias anda fraco este ano, apesar de poder dizer que os únicos dois livros que eu acabei de ler até agora foram certamente livros úteis. Memórias de minhas putas tristes e Ensaio sobre a cegueira. Mas, este último merece mais destaque. É difícil demais dar uma opinião não spoiler sobre o livro então aviso desde já que o texto abaixo contêm revelações sobre o enredo. Mas, antes quero resumir um pouco do que se trata a história. Um resumo grande que obviamente contêm spoilers, mas tanto spoiler quanto a contra-capa ou o resumo do filme contêm. Recomendo para quem pretende ler o livro que não leia nem o resumo, porque sinceramente eu li sem saber do que se trata e foi muito surpreendente.

Ensaio sobre a cegueira trata do grande mal branco. Uma onda de cegueira que faz com que a vista das pessoas seja encoberta por um "pano" branco. O que surge como uma doença misteriosa que se apresenta repentinamente enquanto um homem está dirigindo se espalha pelas pessoas que tiveram contato com ele e por aí se espalha. E logo estas pessoas são levadas para um antigo manicômio a fim de serem postas em quarentena pelo governo e coordenados pelo exército. Sendo que o medo da contaminação é grande o suficiente de forma que eles não receberão nenhuma ajuda, pouca comida, algum material de limpeza inicialmente, nenhum medicamento, ninguém com olhos para os guiar... Nenhuma ajuda exterior. Mesmo que alguém morra, eles, os novos cegos, deverão enterrá-lo, queimar o próprio lixo... Sem visão e confinados a um local que não conhecem a vida dos primeiros cegos é complicada, mas quando o mal branco se torna um problema global, a loucura parece prestes a se espalhar. E entre os contaminados há um médico oftamologista e com ele, sua esposa. A única pessoa que permanece com a visão dentro do manicômio, como se fosse imune a cegueira que se espalha.

Opinião Spoiler do livro

De meus anos de estudante de humanas aos meus anos de aspirante a jornalista, aprendi inúmeras técnicas de resenha. Aprendi também que prefiro evitar usá-las. Ensaio sobre a cegueira é um livro denso que me pegou de surpresa. A simples curiosidade perante o título e a fama de José Saramago impulsionaram minha leitura em seus primórdios. Todavia, um livro contêm uma história e este eu resolvi encarar sem conhecimento prévio. E de início foi bem interessante, o primeiro cego, do nada, todo o terror do mal branco e logo o aprisionamento e o golpe de mestre da mulher do médico. É fato de que ela narra toda a história e é o eu-lírico que reproduz o que ocorre no "manicômio". A sujeira, os dejetos, toda a porquidão... Não é um conto de fadas, é como de fato a sociedade se comportaria em situações destas. A contaminação crescente, de início nos acostumamos a primeira camarata e aos seus seis personagens de destaque. Todos com seus erros, aflições, pecados, vergonhas ... o medo dos soldados e depois o óbvio surgimento de uma camarata que tenta sobrepujar as outras. Claro que em minha opinião boa parte dos sofrimentos causados pela terceira camarata do lado direito poderiam vir a ser evitados se a mulher do médico tivesse tomado uma decisão antes, mas provavelmente ela não teria como imaginar a situação que os mesmos iriam criar e a presença de uma arma de fogo realmente é capaz de silenciar até aqueles que não a vêem. Da simples entrega dos pertencentes de valor até a óbvia humilhação das mulheres, que certamente é um dos pontos que mais me irritou com a descrição dos tipos que ali viviam e não falo dos malfeitores. O fato é que no momento que os homens deixaram bem claro que as mulheres deveriam se sacrificar, eles também deixam claro que eles não passariam por esta humilhação. Humilhação esta que deveras me chateia, afinal eu possuo um tanto daquela chama feminista que não tolera o jeito como as pessoas - homens e mulheres - pensam do sexo feminino e como parece direito que as mulheres se submetam. Admito que o fato do médico ter se deitado com a mulher de óculos escuros enquanto sua esposa via, me tirou um pouco do sério. Principalmente considerando que o livro não mostra em momento algum que ele tomou a mulher para si, por vergonha na frente de outros. Todavia, não teve problema em se deitar com uma "estranha" quando todos poderiam ouvir.  E quando a mulher do médico, munida de força que só a raiva, a vingança e a necessidade de providência podem criar. Refiro-me a simplesmente acabar com a garganta de alguém com uma tesoura e matar outros dois. |Obvio que o fato dela não ter pego o revolver me revoltou bastante, foi idiota, mas as pessoas fazem coisas idiotas. Prefiro não mencionar o incêndio, aquilo foi de sobremaneira idiota pelas proporções catastróficas causadas. Claro, que se não fosse por isto, não haveriam se atrevido a sair. E ao sair do manicômio, o mundo que encontram é genialmente descrito. Todo o horror e a naúsea, o que a humanidade faz quando as formas de organizações antigas não podem mais serem postas. A superação da mulher do médico em sustentar e prover o melhor possível os outros seis, em destaque o velho da venda. Alias, acho interessantíssimo o rádio dele figurar com sua aparição. Mas, a descrição das ruas, dos locais, os cegos vagando, os dejetos, a degeneração, a morte, os animais soltos... E por mais que o livro aparentemente nos presenteie com um final feliz, talvez o melhor final para fins práticos da história fosse que a cegueira permanecesse, que o véu branco continuasse sobre eles. Decerto que a sujeira e putridão existente nas cidades e em breve nos campos, transformaria nosso planeta em um grande caminhão de lixo. Só que como se reorganizar depois de tudo o que passaram e fizeram? Depois de tudo que consideravam antes sujo e indigno? Como se organizar novamente de maneira a limpar a cidade? E os cegos, realmente cegos? Como estes ficam? Será que todos irão querer voltar a suas casas regulares? Será que a inflação voltará a ser controlada e as pessoas que perderam todo seu dinheiro... O que fazer? Não tenho a resposta, certamente será preciso mais do que um par de anos para que tudo retorne a regulariedade e provavelmente o mal branco não alterará em nada as pessoas, porque depois de um tempo, todos esquecem e voltam as suas vidas regulares. Sei também que após a felicidade e extase de voltar a enxergar, todos se voltarão para o estado em que se encontram, como seu mundo se encontram, onde há pessoas mortas em todas as ruas... Um livro bom em seus detalhes, em não representar uma sociedade útopica que teria se mantido organizada, em representar o pior do ser humano. E o desfecho, fosse "bom" ou "ruim", eles vontando a enxergar ou não, permanece como uma incógnita o futuro destes ex-cegos.


Citações

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós"

"Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos."

"O mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos."

"Que tendo começado por mandar as mulheres e comido à custa delas como pequenos chulos de bairro, é agora a altura de mandar os homens, se ainda os temos aqui, Explica-te, mas primeiro diz-nos donde és, Da primeira camarata do lado direito, Fala, É muito simples, vamos buscar a comida pelas ossas próprias mãos, Eles têm armas, Que se saiba só tem uma pistola, e os cartuchos não vão durar-lhe para sempre, Com os que têm morrerão alguns de nós, Outros já morreram por menos, Não estou disposto a perder a vida para os que mais fiquem cá a gozar, Também estarás disposto a não comer se alguém vier a perder a vida para que tu comas,perguntou sarcástico o velho da venda preta e o outro não respondeu."

"Não irão apenas os homens, irão também as mulheres, voltaremos ao lugar onde nos humilharam para que da humilhação nada fique, para que possamos libertar-nos dela da mesma maneira que cuspimos o que nos lançaram a boca." - Mulher do médico